Visão de Portugal em Bruxelas – artigo Jornal Publico

CEE: O “canalizador polaco”, o “bom aluno” e o país das oportunidades perdidas

artigo jornal Público por Isabel Arriaga e Cunha, Bruxelas – 11.06.2010

Lembram-se do “canalizador polaco”, o símbolo do trabalhador barato do Leste da Europa que, na recente mitologia francesa, iria invadir os países mais antigos da União Europeia (UE) e arrebanhar os empregos locais por um terço do salário?

Em Bruxelas acredita-se que a marca deixada até agora por Barroso não é suficiente para que a sua nacionalidade seja citada de forma espontânea (Francois Lenoir/Reuters)

Há exactamente vinte e cinco anos, o “canalizador polaco” era português: na altura da assinatura do Tratado de Adesão de Portugal e Espanha à então CEE, franceses, belgas, alemães, italianos ou luxemburgueses deitavam mãos à cabeça assustados com as hordas anunciadas de imigrantes portugueses que iriam apanhar os poucos postos de trabalho e arruinar a segurança social dos países mais ricos. Portugal era sinónimo de “imigração económica” e deslocalização de empresas.

Um quarto de século depois, os nativos dos países potencialmente “vítimas” são os primeiros a rir dos receios da época, que se revelaram totalmente infundados. E se assim foi, consideram, foi graças ao sucesso da integração europeia em termos económicos e de consolidação da democracia.

Portugal foi efectivamente visto durante vários anos pelos parceiros europeus como uma história de sucesso, tanto próprio como da política de fundos estruturais de apoio ao desenvolvimento dos países mais pobres, sobretudo quando comparado com a Grécia. Vários políticos portugueses costumavam aliás felicitar-se de forma irónica com a existência da Grécia, que, por permanecer “na cauda da Europa”, perdia sempre na comparação com os sucessos lusos. Os gregos faziam precisamente o contrário, citando a invejável trajectória portuguesa para ilustrar as misérias nacionais.

Para os países de Leste aspirantes à adesão, aliás, o percurso português era invariavelmente citado como o exemplo de integração e convergência económica a seguir.

Tudo pareceu correr pelo melhor durante vários anos para um país “simpático”, “discreto”, “cumpridor”, que levava a sério a convergência económica com a Europa e estava a anos-luz da arrogância espanhola – era a fase do “bom aluno” -, apesar de não ser particularmente entusiasta da integração europeia e permanecer muito próximo do Reino Unido.

Subitamente a imagem desmoronou-se. Para os nórdicos, incluindo os alemães, a divergência persistente de Portugal face à média de rendimento da UE suscita inúmeras questões sobre o país em si – para as quais não têm resposta – e sobre a pertinência da continuação dos fundos estruturais comunitários.

Os mesmos países de Leste que procuravam inspirar-se no percurso português, encaram-no agora como o exemplo a evitar. O bom aluno tornou-se no país das “oportunidades perdidas”, referem os húngaros, que, apesar da distância mas por causa da dimensão (10 milhões de habitantes), passado imperial e algum sentimentalismo e melancolia, encaram os portugueses como os europeus de que se sentem mais próximos. Isto, embora sem chegar ao ponto dos gregos, que encaram os portugueses como “uma espécie de primos”.

Os Estados bálticos, em contraste, reconhecem que sabem muito pouco sobre Portugal, um país que do seu ponto de vista está “no extremo oposto da Europa” em todos os sentidos. A generalidade dos europeus, aliás, continua a resumir o seu conhecimento de Portugal ao futebol, ao turismo e talvez aos Descobrimentos, embora Fernão de Magalhães não chegue nem de perto nem de longe aos calcanhares da notoriedade de José Mourinho ou Cristiano Ronaldo.

Pelo menos os bálticos sabem que se trata de um país “em que também se fala português”, segundo ironiza um dos seus correspondente de imprensa em Bruxelas. Nestes países, “é o Brasil que põe Portugal no mapa”, sublinha.

Mas os estónios, que vão aderir à moeda única europeia a 1 de Janeiro de 2011, sabem igualmente que estão em risco de ter de contribuir com uns largos milhões de euros para uma eventual ajuda do fundo de estabilização do euro caso Portugal – como prevêem muitas Cassandras – enfrente dificuldades de financiamento no mercado. Subitamente, um país “completamente exótico” entrou no debate nacional de estónios, eslovenos ou eslovacos pelas más razões.

Muitos europeus do Leste, aliás, notam que nos seus países, além do futebol e do turismo, Portugal é conhecido por ser o “P” de PIIGS, a sigla composta pelas iniciais (em inglês) dos países em sérias dificuldades financeiras (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha).

Entre os países geográfica e culturalmente mais próximos, como a França, Espanha, Itália, Bélgica e de certo modo a Alemanha, Portugal surpreende sobretudo pelo facto de, mesmo pesando pouco no debate e nas políticas europeias, ter conseguido “pôr” um dos seus nacionais na presidência da Comissão Europeia – Durão Barroso – e dar o nome de Lisboa a um tratado europeu. Barroso, para os espanhóis ou italianos, ilustra ainda uma das qualidades que mais invejam nos portugueses: a fluência em várias línguas e a capacidade de comunicação com diferentes culturas.

Para muitas destas nacionalidades, no entanto, Barroso também personifica um traço frequentemente atribuído à cultura lusa: uma boa presença e grande capacidade oratória mas pouco conteúdo e eficácia, a que se junta uma cultura do segredo doentia e uma desconfiança clara de tudo o que não é português ou “conhecido”.

Muitos correspondentes de vários países em Bruxelas acreditam que a marca deixada até agora por Barroso não é suficiente para que a sua nacionalidade seja citada de forma espontânea entre os seus compatriotas. Para um veterano francês, Frits Bolkestein, por exemplo, o comissário holandês autor, em 2003, da legislação europeia que suscitou o mito do “canalizador polaco” continua a ser muito mais conhecido em França do que Durão Barroso.

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